AS VIAGENS DE CÂNDIDO: VOLTAIRE E A FORMULAÇÃO
UTÓPICA DO PRÓXIMO MILÊNIO
Deise Quintiliano Pereira -UFRJ
No presente estudo tenho por objetivo estabelecer uma conexão entre a necessidade de formulação utópica nos dias atuais, em que nos encontramos no limiar de um novo século e de um novo milênio, e a existência de um possível modelo de utopia, subjacente ao texto de Voltaire Cândido ou o otimismo.
Nessa análise, utilizarei pressupostos teóricos empregados sobretudo por Jerzi Szachi, no seu livro As Utopias, para cotejar a resistente obra literária voltairiana, com quase dois séculos de existência.
No mundo da utopia
O castelo onde Cândido foi criado apresenta-se como o espaço que abriga a primeira utopia da narrativa. Localizado na Vestfália recolhe o jovem Cândido, "a quem a natureza aquinhoara com as mais doces virtudes" (Voltaire, 1991:11), tendo recebido, por isso, seu nome; o senhor barão, "um dos mais poderosos suseranos da Vestfália"; a senhora baronesa, que "fazia as honras da casa com tal dignidade que ainda mais respeitável se tornara"; sua filha Cunegondes que "com dezessete anos, era viva de cores, gorda, fresca, apetitosa"; o filho do barão que "revelava-se em tudo digno do pai"; o preceptor Pangloss, oráculo da casa, que lecionava "metafísico-teólogo-cosmolonigologia", enquanto provava admiravelmente que não há causa sem efeito.
As informações que introduzem os personagens centrais da história convidam-nos a um olhar mais atento sobre este esboço utópico de "o melhor dos mundos possíveis" (Voltaire, 1991:12). Essa perspectiva anuncia-se na ótica do "mestre do otimismo", Pangloss, o maior filósofo da província, e, conseqüentemente, da terra":
Está provado, dizia que as coisas não podem ser de outra maneira, porque sendo tudo feito para um fim, tudo existe necessariamente para o melhor dos fins.[...] aqueles que afirmaram que está tudo muito bem, disseram uma tolice; era preciso que dissessem que tudo vai da melhor forma (Voltaire, 1991: 12).
Assim, o castelo apresenta-se como uma utopia de lugar onde "se pode viver", pois indica o espaço do bem vivido, aproximando-se do conteúdo utópico da sociedade ideal de Platão, cuja formulação, segundo Ernst Bloch (1982:52), é "fruto de reflexões maduras e reacionárias", já que não há economia nem excessos nesta proposta.
A aproximação de ambos os modelos utópicos é imperativa, porque convergem para um ideal fundado sobre noções de ordem geral do cosmos, hierarquia, primado da filosofia, cultura aristocrática, propriedade privada e hierarquizada – templo do racionalismo. A utopia deveria ser concebida, desse modo, como doutrina, seguindo os preceitos da adequatio, posto que propõe a reduplicação do modelo. Por isso, Szachi alerta:
O Estado platônico é em última instância o resultado de um raciocínio cujo ponto de partida é o suposto princípio de Justiça eterna e a exclusão de tudo que é mutável e real no sentido corriqueiro da palavra (Szachi, 1972:67).
Trata-se de uma arquitetura erguida nos domínios da eternidade, não nos da história. Por outro lado, a utopia pode ser abordada por diferentes enfoques. Para Pangloss, Tunder-ten-tronckh formaliza o ideal utópico, pois o filósofo não vê o mundo em desacordo com o ideal – o ideal é o próprio mundo. A experiência do castelo é maximalista, pois não há ruptura entre o que é e o que deveria ser. Toda a humanidade tenderia a vivenciar esta verdade revelada pela filosofia, mas nunca experimentada, pois os movimentos de massa não são mencionados.
Para Cândido, que pensa partilhar dos preceitos filosóficos de Pangloss, a fundamentação utópica não se coloca. Ao reconhecer em mestre Pangloss "o maior filósofo da província e conseqüentemente da terra", ignora o fato de que a humanidade não se limita à Vestfália e de que o ser humano, na sua complexidade, não pode se restringir a meras relações de causalidade, como defende o filósofo otimista. Segundo Szachi, "não será utópico o alfaiate que propaga um corte de calças diferente do generalizadamente aceito. A menos que considere esta questão como condição necessária para a felicidade da humanidade" (Szachi, 1972:13).
O corte de calças proposto por Pangloss não se coaduna com as exigências do Homem. Ao admitir que "aqueles que afirmaram que está tudo muito bem, disseram uma tolice; era preciso que dissessem que tudo vai da melhor forma", nega a utopia, pois não aceita a existência do mal. Não sai da realidade para criar um ideal, e, como se sabe, as utopias jamais são fabricadas por pessoas assentadas e satisfeitas. É necessário caminhar um pouco mais.
"O que não se consegue num mundo, encontra-se em outro. É sempre prazer imenso ver e fazer coisas novas". A afirmação do personagem Cacambo antecede a chegada de Cândido ao país do Eldorado, onde se imbricarão quase todos os tipos de utopia definidos por Szachi. Este afirma ao referir-se à utopia de lugar: "o país que cada um pode visitar não se presta a modelo de sociedade perfeita" (Szachi, 1972:30). Verdade caucionada pelo texto de Voltaire:
Não era fácil ir a Caiena: sabiam, mais ou menos para que lado caminhar; porém montanhas, rios, precipícios, bandidos, selvagens, constituíam em todo canto, terríveis obstáculos [...] vogaram algumas léguas entre margens floridas ou áridas, planas ou escarpadas [...] descortinaram finalmente, a perder-se de vista, um horizonte limitado de montanhas inacessíveis. Era terra cultivada, não só o útil era agradável [...] eis aí, todavia, disse Cândido, um lugar que vale mais que a Vestfália (Voltaire, 1991:91).
O Eldorado surge então como a Utopia de Thomas Morus ou A cidade do sol de Campanella, por designar o lugar feliz, o país da cocanha, ilhado, isolado – etimologicamente, utopia representa o não lugar, o lugar que não existe.
O aspecto espacial desta utopia confunde-se com os da utopia da ordem eterna, posto que os indivíduos que ali habitavam, desprovidos de ambição e egoísmo, aproximam-se dos descritos nas utopias do estado natural do "bom selvagem". É evidente sua atitude de estrangeirismo diante dos mecanismos sociais trazidos por quem "vem de fora".
Bem vemos que sois estrangeiros, com quem não estamos acostumados a lidar. Não tendes certamente moeda do país, mas não é necessário possuí-la para jantar aqui. Todas as hospedarias estabelecidas para comodidade do comércio são pagas pelo governo (Voltaire, 1991:94).
A natureza destinou a terra para os homens e aqueles que agissem de acordo com ela receberiam bons frutos. Da obediência à natureza dependeria a felicidade e a fartura à mesa. Os habitantes do Eldorado parecem seguir os fundamentos do taoísmo, de Lao-Tsé. Não há mal neste país porque seus habitantes não abandonaram o tao (caminho e virtude), ou seja, a ordem universal do mundo, o que reforça a existência de uma utopia da ordem eterna no interior do Eldorado. Voltemos a Szachi:
O século do iluminismo foi o século de ouro da utopia da ordem eterna, a qual, junto com as utopias do estado natural do "bom selvagem", criou o clima de visão de mundo no qual amadureceram os programas de transformação social radical. Ainda que a maioria dos filósofos não quisesse nada com a convocação do povo para a revolução, foi característica de todos eles a atitude de estrangeirismo diante dos mecanismos sociais existentes, a convicção de que não satisfaziam às necessidades humanas, de que eram não naturais e não racionais (Szachi, 1972:74).
É preciso cultivar a utopia nossa de cada dia
A conclusão de Cândido ou o Otimismo mostra Cunegondes desprovida de qualquer traço que faça entrever a beleza de outrora. Tendo se tornado rabugenta e insuportável, casa-se com Cândido a quem nada restara além de uma granja. Vivem em companhia dos filósofos Pangloss e Martinho, do prudente Cacambo e de uma velha enferma, ainda mais mal-humorada do que Cunegondes. Cacambo, que trabalhava no jardim e vendia legumes em Constantinopla, maldizia a vida, sobrecarregado de trabalho. Pangloss desesperava-se por não poder brilhar em alguma universidade da Alemanha. Martinho, por sua vez, continuava firme no seu propósito de que se está sempre mal seja lá onde for.
Candido, Martinho e Pangloss discutiam seus postulados filosóficos freqüentemente e quando não se discutia, o tédio se abatia sobre todos. Durante essas conversas, espalhara-se a notícia de que, em Constantinopla, dois vizires do Conselho e o mufti acabavam de ser estrangulados e vários de seus amigos empalados. Ao indagar a um bom velho que encontraram tomando fresco, à sombra de laranjeiras, na porta de sua casa, sobre o que achava do ocorrido, Pangloss, Martinho e Cândido obtêm a seguinte resposta: "– Não faço a mínima idéia; nunca tomei conhecimento de nenhum mufti, nem de nenhum vizir [...] os que se metem nos negócios públicos perecem às vezes miseravelmente e com justo motivo" (Voltaire, 1991:176).
O velho cultivava as vinte jeiras que possuía juntamente com seus filhos, afirmando que "o trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade". Pangloss concorda lembrando que quando o homem foi posto no jardim do Eden o fizeram ut operaretur eum, para que labutasse, pois o homem não nasceu para o repouso. Mesmo Martinho, no seu cepticismo profundo, coaduna-se com a nova palavra de ordem: "trabalhemos sem maiores discussões; é a única maneira de tornar a vida suportável" (Voltaire, 1991:177).
Todos concordaram com essas propostas, cada qual pondo em prática o próprio talento. A fazendinha progrediu. Cunegondes, embora feia, tornou-se excelente pasteleira. A velha cuidava da roupa. Pangloss tenta ainda manter-se fiel a uma filosofia já comprovadamente equivocada, defendendo o princípio da causalidade e do encadeamento dos fatos, ao que Cândido acrescenta: "– Muito bem, mas é preciso cultivar nosso jardim" (Voltaire, 1991:178).
A primeira conclusão proposta pela solução voltairiana implica uma rejeição absoluta de toda metafísica e de toda crença no divino. O filósofo aposta numa razão terrestre, fecundada de acordo com nossas experiências, pois acredita que "a sabedoria verdadeira só pode ser uma sabedoria prática".
Infeliz pela sobrecarga que essa missão lhe impunha, Cacambo, que era o único a trabalhar no pomar, a partir da divisão do trabalho conjunto, encontra também satisfação na sua ação. A fórmula do velho não deve ser necessariamente interpretada como uma proposta que visa fazer o indivíduo voltar-se para si mesmo, fechando-se numa perspectiva egocêntrica. O jardim que ele nos convida a fertilizar é o mundo. Este viés possibilita retornarmos ao pensamento utópico.
Relendo a Dialética da esperança de Bloch, Pierre Furter afirma que é a consciência da fome que leva o indivíduo a sair da miséria e a procurar uma solução. O acordar implica atordoar-se com perguntas como: o que comer? onde buscar comida? como fazer para nunca mais ter fome? que representam o primeiro esboço das utopias – concebidas como construções imaginárias pelas quais o homem tenta criar situações de redução ou aniquilamento dessas necessidades.
"É preciso cultivar nosso jardim" constitui-se, assim, numa proposta prática, num hic et nunc que visa à supressão da fome existencial, recheada por questionamentos metafísicos. A fórmula é essencialmente simples, mas seu alcance, se bem executada, pode ser demolidor, conduzindo à transformação de toda sociedade, a partir da criação de pequenos núcleos expandindo-se em força centrífuga.
"Cultivar nosso jardim" é um princípio que segue uma natura naturans, que desde tempos remotos dá orientação ao homem, permitindo que sua própria natureza humana – se assim é possível defini-la – com aquela interaja. Desta fusão positiva, o homem deve retirar seu sustento e felicidade. Trata-se, então, de uma natureza entendida como physis – vigor em sempre presente brotar – em oposição a uma natura naturata, reduplicadora do modelo.
A fórmula final apresenta traços muito característicos de um modelo próprio. Poderíamos considerá-la uma utopia heliotrópica ativa, tendo como base a emissão de raios solares (idéia + prática), disseminando-se entre os homens por contágio.
A grande virada da proposta voltairiana constitui-se na passagem não traumática do princípio de prazer para o princípio de realidade ou desempenho. Por um lado, elevam-se as razões que representam o ego organizado, que se esforça para obter "o que é útil", por outro lado, surge a certeza de que "o Eros incontrolável – abolição total do trabalho – é tão funesto quanto sua réplica fatal, o instinto de morte" (Marcuse, s/d:27).
A conclusão de Cândido: "trabalhemos sem pensar é a única maneira de tornar a vida suportável", coloca em xeque a relação fundamental entre o vocábulo trabalho e sua origem etimológica (do latim tripaliu, originariamente designando o instrumento que servia para ferrar cavalos), sempre associada a um desprazer.
Como opção consciente, e em doses a serem regulamentadas para não ultrapassar os limites necessários ao homem, o trabalho não adiaria o prazer, pois seria sua própria fonte de escoamento. Se há prazer no trabalho, ocorre a diluição da dicotomia proposta por Marcuse e o estado natural – sempre em latência no homem – é complementado pelas idéias de produtividade e gratificação.
Nesta perspectiva, não estaríamos afastados dos fundamentos que nortearam as idéias iluministas do séc. XVIII, pois a noção de progresso não estaria necessariamente associada ao mal. A concepção defendida por Marcuse, de inversão no rumo do progresso, pode ser interpretada como inversão no rumo do trabalho e nas relações deste com o homem.
É preciso fazer com que a força do trabalho e a mão-de-obra sindicalizada ou não parem de atuar em defesa do status quo, determinando um novo pacto que oriente essas relações. Numa sociedade de base escravocrata, como a nossa, tal atitude exigiria mudanças radicais nos acordos firmados entre o empresariado e a classe trabalhadora, o que não é tarefa fácil.
Deste modo, acredito que a formulação de novas relações de trabalho possam constituir-se num elemento engendrador do ideal utópico do final deste milênio. Entendo por isso não serem conflitantes as propostas voltairianas de progresso e as que se desenvolveriam em nossa época sob esta égide ¾ todas partiriam de um ideal de felicidade em busca do bem estar e da resolução das necessidades mais instintivas, vencendo a angústia existencial, fazendo Eros emergir de Thanatos.
BLOCH, E.(1982) Le rêve platonicien de l'état dorien (p.52-56); L'île du soleil de Iamboulos (p.56 - 59); La philosophie du portique et l'état cosmopolite (p.59 - 65). In: ___. Le principe espérance. Paris: Gallimard. VII.
_____. O homem como possibilidade.(1966) Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, (8), p.15-28.
COELHO, T. O que é utopia? (1980). Rio de Janeiro: Brasiliense (Coleção Primeiros Passos).
FURTER, P. (1974) A dialética da esperança; uma interpretação do pensamento utópico de Ernst Bloch. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
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